Sobre-abstração: Uma doença intelectual
Quando a abstração enlouquece e a razão desaparece
Sobre-abstração: Uma doença intelectual
Temas Abordados: Patologia do Pensamento. Secundário: Metafísica e Epistemologia
Introdução
Exemplos clássicos de sobre-abstração
Matemática posta como ontologia
Sobreposição quântica
Surgimento Ex Nihilo
Conclusão
Introdução
Observação: O foco do texto é diagnosticar uma patologia intelectual; embora sejam utilizados exemplos da física e da metafísica, esses campos não constituem o objeto principal da análise.
Chamo de sobre-abstração o vício intelectual que surge quando modelos conceituais, matemáticos ou linguísticos se desligam da realidade concreta e passam a ser tratados como se fossem a própria realidade. Não se trata de criticar a abstração em si, pois ela é indispensável ao pensamento, mas de denunciar seu uso patológico, quando a abstração deixa de servir ao mundo e passa a substituí‑lo.
O pensamento moderno está repleto de exemplos em que limites de observação, convenções matemáticas ou metáforas úteis foram reificados e elevados ao estatuto de verdades metafísicas. O resultado é uma filosofia que produz frases impressionantes, porém vazias, e uma ciência que confunde o abstrato com o concreto.
A abstração saudável simplifica o real para compreendê‑lo melhor. Ela é instrumental e consciente de seus limites.
A sobre‑abstração, pelo contrário:
Transforma ferramentas em entidades.
Ignora a experiência concreta quando ela entra em conflito com a teoria.
Põe incompletude e limites de observação como fatos metafísicos reais.
Abandona o óbvio do concreto e se afunda em hiper delírios teóricos.
Quando isso ocorre, o pensamento deixa de explicar o mundo e passa a afastar do mundo.
Exemplos clássicos de sobre-abstração
Abaixo estão alguns exemplos claros de sobre‑abstração, todos eles derivados do mesmo erro fundamental: transformar limites conceituais ou modelos matemáticos em afirmações ontológicas.
Matemática posta como ontologia
Aqui o erro não é usar matemática, é cometer um salto ilegítimo de categoria:
Formalismo descritivo → Estrutura da realidade
A matemática é um sistema axiomático fechado definido por regras internas, é consistente, mas consistência interna ≠ existência física. Nada dentro da matemática existe por si, ela só existe como linguagem aplicada.
O erro mais clássico é o contínuo matemático: “A matéria é infinitamente divisível porque o contínuo é matematicamente consistente”. Isto é um erro grave, pois a divisibilidade infinita é uma propriedade do modelo matemático, e não pode ser extrapolado como realidade física.
A afirmação de infinitos físicos, de qualquer forma que seja (Quantidade infinita, extensão infinita, divisibilidade infinita) é um delírio super-abstrato, um colapso no senso de realidade, não há nenhum lastro no mundo real e na razão para se postular um infinito físico.
O paradoxo de Zenão torna explícito o absurdo da divisibilidade infinita sendo posta como verdade física:
Hipóteses assumidas (implicitamente aceitas pelo contínuo físico):
O espaço é infinitamente divisível.
O tempo é infinitamente divisível.
Para percorrer uma distância, é necessário percorrer todas as suas partes.
Um movimento é composto por uma sequência de posições intermediárias.
Essas quatro hipóteses são exatamente o contínuo matemático aplicado ao mundo físico.
O paradoxo:
Aquiles dá à tartaruga uma vantagem inicial.
Para alcançar a tartaruga, Aquiles precisa primeiro chegar ao ponto onde a tartaruga estava.
Quando Aquiles chega a esse ponto, a tartaruga já avançou um pouco.
Aquiles então precisa chegar ao novo ponto da tartaruga.
Quando chega lá, a tartaruga avançou novamente.
Esse processo se repete infinitamente, porque o espaço entre eles nunca deixa de ser divisível.
Logo:
Antes de alcançar a tartaruga, Aquiles precisa completar infinitas etapas.
Completar infinitas etapas é impossível.
Portanto, Aquiles nunca alcança a tartaruga.
O paradoxo resumido: O movimento exige a realização de uma quantidade infinita de atos distintos, se o mundo é contínuo, então é impossível sair de um ponto A e chegar a um ponto B, pois existem infinitos pontos no caminho, mas é possível e o movimento existe, portanto, o mundo não pode ser contínuo, e sim estruturado de blocos indivisíveis que saltam de um para o outro sem infinitos pontos intermediários.
Porém o foco do texto não é argumentar em defesa de nada, mas tornar explícito o delírio do exagero de abstração, não há nenhum lastro na realidade para se afirmar a existência do infinito fisicamente, porém a mente afastada do concreto e presa em modelos abstratos se perde e afirma isto.
Sobreposição quântica
Um outro exemplo moderno da sobre-abstração é a famosa sobreposição quântica, um assunto muito repetido erroneamente pelos jovens cientificistas.
A sobreposição é um formalismo matemático introduzido para descrever sistemas quânticos antes da medição. Ela nasce como ferramenta de cálculo, não como descrição ontológica concreta. O erro patológico surge quando se comete novamente o mesmo salto ilegítimo de categoria:
Formalismo probabilístico → Estado real do mundo
O que a sobreposição realmente é:
No formalismo quântico, um sistema é representado por um vetor de estado. Esse vetor pode ser escrito como combinação de estados possíveis. Isso apenas significa que o sistema não possui um valor definido para certa grandeza dentro do modelo e que a teoria fornece probabilidades condicionais para resultados de medição. Nada disso implica que:
O sistema exista simultaneamente em múltiplos estados reais
Uma coisa seja, ao mesmo tempo, A e não-A.
Essa leitura não está contida realmente na física quântica, ela é adicionada posteriormente como verdade ontológica por delírio hiper abstrato e distanciamento do real.
Não consigo saber se é A ou não-A ≠ Ser simultaneamente A e não-A e existir probabilismo metafísico.
A formulação popular:
“A partícula está em dois estados ao mesmo tempo até ser observada”
Trata-se um abuso conceitual grotesco, pois transforma uma indeterminação contingente em uma contradição e indeterminação ontológica real. Aquilo que é apenas desconhecido ou não definido passa a ser tratado como simultaneamente existente. Isso viola um dos princípio mais básicos da razão: algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e negar isto é um diagnóstico claro de sobre-abstração.
O chamado “colapso” é outro exemplo claro da doença.
O que realmente acontece:
Ocorre uma interação física concreta entre sistemas.
Há troca de energia, acoplamento, irreversibilidade.
O que o discurso sobre-abstrato faz:
Descreve isso como se a realidade escolhesse uma forma ao ser observada.
Isso é antropomorfismo místico disfarçado de rigor técnico, a observação não cria estados, ela revela o estado que já estava definido.
Resumo da sobreposição como erro metafísico:
Afirmar que:
Um elétron está em dois lugares ao mesmo tempo.
Um sistema possui múltiplas propriedades contraditórias simultaneamente.
Não é física, é uma ontologia delirante sem lastro na realidade. É o mesmo erro do contínuo em que uma estrutura matemática útil passa a ser tratada como estrutura do real.
Surgimento Ex Nihilo
Outro sintoma recorrente da sobre-abstração moderna é a afirmação de efeitos sem causa e de surgimento do nada (ex nihilo), especialmente em discursos popularizados da física quântica. Aqui o erro se repete exatamente no mesmo padrão:
Limite da observação → afirmação metafísica
Ou seja, a incapacidade de descrever causalmente um fenômeno não é reconhecida como limitação descritiva, mas transformada em uma tese ontológica absurda.
Não sabemos a causa ≠ Não existe causa
Esse salto não é científico, é psicológico, a mente prefere afirmar o absurdo a admitir ignorância.
A afirmação de que algo surge do “nada” é um dos sinais mais claros de que uma pessoa se afundou em sobre-abstração e se desprendeu da realidade, desaprendeu a raciocinar com lastro nos princípios lógicos mais básicos. “Nada” é a ausência total de ser, ele não existe por definição. Afirmar que algo surge do nada equivale a afirmar que o não-ser produz o ser.
A versão quântica do erro
Quando se diz que: partículas “aparecem espontaneamente” e “eventos ocorrem sem causa”, o que realmente ocorre é que o modelo probabilístico não rastreia a causalidade e transformar isso em “a realidade é acausal” é novamente ontologizar um modelo abstrato e se afastar das obviedades concretas.
O probabilismo do modelo vira probabilismo metafísico.
Conclusão
Em todos os casos examinados, o padrão da sobre-abstração é o mesmo: modelos deixam de ser instrumentos e passam a ditar o que o real pode ou não ser. Quando isso ocorre, a razão abandona o concreto, a ciência se converte em uma metafísica esdrúxula e o pensamento perde seu critério mais básico: o mundo tal como ele se apresenta — sem infinitude física, sem contradições ontológicas, sem surgimento ou reificação do “nada”, entre outras verdades autoevidentes.
A superação da sobre-abstração exige firmar-se nos princípios mais básicos da razão e uma reaproximação do concreto, afastando-se do mental excessivo e retornando ao mundo real.
